
Machado de Assis

Machado de Assis? Aquele que, como Brás Cubas, seu personagem, não transmitiu a ninguém o legado de sua (e ainda nossa) miséria. No entanto nos deixou filhos-livros para mostrar nossa miséria até sua morte, nesta data, 29 de setembro, há cento e dez anos. Não apenas a miséria econômica, mas a da condição humana, provocada e alimentada por nós mesmos. O verme que nos come a cada dia.
Machado de Assis? aquele que viu a sociedade com olhos que não eram de ressaca, nem de seminarista, mas olhos nus, olhos que viram para além da moral, que derrubou os véus das boas ações e enxergaram. Enxergaram as hipocrisias, contradições, falácias, imoralidades moralizadoras, repressoras.
Machado de Assis? Aquele que deu voz aos que na vida nada de saldo tiveram, apenas o “mais do mesmo” ao qual está destinado muitos dos que nascem a cada dia.
Machado de Assis? Porém aquele que subverteu sua condição e fez da sua vida um underlog: mestiço, gago, epiléptico e pobre. Aquele de quem nada se esperava além do cumprimento do seu destino medíocre, mas que, ao virar a literatura de ponta-cabeça, emergiu do morro do livramento e livrou-se da sua sina; aliás, criou sua sina, que era escrever. Escrever... de novo... mais... ainda... Escrever sobre o real e sua pobreza ética.
Machado de Assis? Aquele que inventou Capitu, que nos capturou com o enigma daqueles olhos de ressaca. Aqueles olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Olhos de Capitu que nos persegue em noites insones com a pergunta. Inocente? Culpada? Inocente e culpada de quê? Traiou ou não traiu? “Esta não é a parte mais importante do livro”, dizem que ele dizia. E assim nos tortura, não nos deixa esquecer do seu nome. Que estratégia de marketing, senhor Machado!
Machado de Assis? Rei da literatura nacional. Nosso Nobel de Literatura imaginário. Nosso mestre. Nosso mago.
Machado de Assis? O que mais dizer? Tudo, e nada. Pois tudo o que se diz é nada perto da sua grandeza.