
Ensaio sobre a lucidez

Uivemos, disse o cão. Um uivo de dor, um chamado, convocação para a revolta dos eliminados, a ruptura da opressão, a guerra contra a falsa democracia. Terminei “Ensaio sobre a lucidez”. Tão diferente do que imaginei que seria! Para melhor, sem dúvida. José Saramago exibe os absurdos que podem cometer aqueles que desejam manter o poder, justamente para manter o poder. Imaginei que a mulher do médico seria morta, mas não queria que isso acontecesse. Imaginei que o inspector sofreria represálias, mas não imaginei que a morte seria uma delas. Um estado que mata sob o manto da democracia. Uivemos, disse o cão. Uni-vos!, é o convite. Gostaria de saber o que houve depois. As massas se rebelaram ainda mais? Tiveram consciência de que se rebelavam? Tiveram um motivo para manifestarem pela linguagem a sua vontade e seu pensamento? Quais os impactos internacionais do que aconteceu? Foram descobertos? Ou, como tantas coisas na histórias, ficaram fora dos livros e dos jornais? Saramago não revela! Talvez porque os impactos deveriam e devem acontecer fora dos livros, entre nós. O que houve ali, há aqui o tempo todo. Precisamos nos unir, mas não nos iludamos, os donos do poder continuarão fazendo absurdos para calar o povo. É triste saber que quando se levanta a voz contra o atroz, alguém vai se machucar. Que não será sem perdas e danos que talvez seja possível conquistar transformações sociais. Já perdemos tantos, não é mesmo? E já conquistamos tanto, não é mesmo? Para cada conquista, muitas perdas, de diversas formas, incluindo vidas. Talvez por isso a massa sempre esteve passiva. Qualquer sinal de atividade sempre foi severamente reprimido. Porém, o que se pode dizer neste momento é o que ponto de retorno não existe mais. Ou o povo se une e se revolta, ou será amassado pelo poder. Uivemos!