
Abril Despedaçado

Kadaré, Ismail. Abril Despedaçado: trad: Bernardo Joffily - São Paulo: Companhia das Letras, 2001. "
'Dezessete de março', murmurou consigo. Vinte e um de março. (...) Dezessete de abril."
Em abril mais um tem data para começar a fugir da morte sem esperança de escapar. Seu nome: Gjorge. Mais um nome entre tantos que virão e outros tantos enterrados em muranas. Mas ele caminha para a morte sem recuar, como se para ela tivesse nascido. Porém, não é sem pavor que ele caminha, embora não pense em voltar.
. "... abril-morto. E depois, sempre isso: abril morto e mais nada. Maio, nunca."
Abril Despedaçado, romance de Ismael Kadaré que apresenta a loucura de um lugar que só é loucura para o estrangeiro. Seu nome: Rafsh. Lugar onde a morte vale mais que a vida e sua data, a da Vendetta, é aguardada e sobre ela inventados rituais e regras que a tornam um célebre, ainda que mórbido. .
"Mais tarde viria abril, ou melhor, apenas sua primeira metade." .
Uma camisa ensanguentada pendurada no varal. Uma ordem: aquele deve morrer. Uma certeza: aqueles cujo ente fuzilei, me fuzilarão. .
"Gjorg sentiu um vazio do lado esquerdo do peito."
Sem fuga. Um destino certo! Tudo para fazer cumprir a palavra: o Kanun. A palavra não escrita que age. A palavra que manda matar e pagar com sangue e dinheiro. Sim, a morte ali também faz parte do capital. (O que não faz?). E se há quem morre e quem mata, há quem lucra com isso e não morre nunca e ainda faz a gente toda crer que há razão honrosa em vingar e morrer por ter vingado seu ente. .
"Abril desde já se revestia de uma dor azulada... Ah sim, abril sempre lhe causara essa impressão, de um mês um tanto incompleto."
O povo, porém, não questiona a palavra, o Kanun, e sim o enaltecem e crêem na loucura como se ele fosse um código penal. É preciso dizer, o Rafsh fica longe, mas a crença no absurdo, a reverência aos engodos, a manipulação dos afetos para gerar lucro para alguns sob padecimento de tanta gente parecem estarem bem perto de nós. .
"Abril dos amores, como diziam as canções. O seu abril despedaçado"